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Ensino de Redação no Colégio Maanaim: um relato de experiência pedagógica

Uma reflexão sobre a vivência de um professor de redação da terceira série do Ensino Médio


Fonte: arquivo pessoal


Inicio este texto comemorando, como professor de produção textual, que o Colégio Maanaim é a instituição com o melhor desempenho em redação da região de Brotas-Salvador, com média geral de redação entre os alunos de 826,8. Ou seja, os alunos que fizeram o ENEM da terceira série obtiveram pontuação igual ou superior a 800 pontos na redação. Essa pontuação, caro leitor, é a constatação de um trabalho que não é só meu como professor, mas que envolve todo o ecossistema escolar (alunos e professores) e uma metodologia direcionada, capaz de potencializar a capacidade argumentativa dos estudantes.

Fenômeno esse que colocou o desempenho de redação do Maanaim em uma posição superior à média geral do Colégio Bom Pastor (736,9), Colégio Nossa Senhora da Conceição (734,9) e o Colégio Resgate/Brotas (734,8), segundo os dados do ENEM 2022 disponibilizados pelo INEP/IAO.

Escrevo este texto não apenas como um relato de um professor orgulhoso do trabalho produzido, mas também como um educador que se percebe como sujeito aprendente e que, para alcançar tal desempenho, foi preciso construir uma jornada de mudanças que pavimentaram esse percurso. Para revisitar esse trajeto, é importante pensar sobre a motivação. Na contemporaneidade, há diferentes concepções sobre o que seria "motivação", enquanto conceito, segundo a definição de Oxford Languages "conjunto de processos que dão ao comportamento uma intensidade, uma direção determinada e uma forma de desenvolvimento próprias da atividade individual." Pensar esse conceito no contexto da sala de aula traz à tona um desafio docente no contexto educacional brasileiro, sobretudo depois da pandemia: a desmotivação.

Como professor de produção de texto, especificamente na terceira série do Ensino Médio, ao longo desses 05 anos de atuação (sou professor do terceiro ano desde 2022), é perceptível como esse fenômeno social atravessa a sala de aula, a relação entre o conhecimento e o estudante, especificamente quando se fala em escrever redação (ou melhor, redação ENEM), atestando um sentimento de terror e resistência no ensino médio. Bzuneck (2009) destaca que o professor lida com dois desafios na sala de aula: resgatar o aluno desmotivado ou com alguma motivação equivocada e a segunda é manter permanentemente a motivação, ou seja, continuamente exercer esse papel de motivar os alunos a aprender.

Isso porque, considerando o ensino de produção de texto, o aluno tem dificuldade com a escrita associada ao desinteresse, muitas vezes, coletivamente potencializados com os fatores pedagógicos, tornando a tarefa de aprender a escrever ainda mais assustadora. Quando assumi a função de professor de produção textual, recebi a tarefa de criar a cultura de escrita e de vestibular no ensino médio do Colégio Maanaim, função que desempenho atualmente e pude executar isso, entendendo que ações tanto pedagógicas quanto relacionais seriam necessárias para construir esse comportamento escolar, o qual, pela graça de Deus, trouxe resultados significativos.


Professor de Redação da 3ª Série a partir de 2019 - Média Geral dos alunos de redação . Fonte: Aio Educação/INEP

  • 1ª MUDANÇA - desconstruir a mentalidade assustadora sobre "escrever e das aulas de redação". E para fazer isso, foi necessário criar o hábito da produção de texto com os alunos, a orientação de escrita (o atendimento individualizado com cada aluno) e o suporte junto aos alunos.

  • 2ª MUDANÇA - adaptação do método. Como professor, escrevi e-books de repertórios, gravei aulas específicas, as quais disponibilizo para os alunos, considerando os níveis de desenvolvimento de escrita, inclusive, categorizei esses níveis, a partir da análise da Matriz de referência do ENEM/Redação. E, como os alunos, antes da minha chegada, escreviam com mais flexibilidade do ponto de vista da cobrança e do acompanhamento, perceberam que teriam que ser mais responsáveis com a própria escrita. Em 2019, assumi as turmas do ensino médio, incluindo o terceiro ano, esse que tive a missão de treiná-los para elevar as notas de redação ENEM, relativamente baixas no ano anterior. Tarefa fácil, não, mas, reafirmo aqui foi uma das melhores turmas que tive o prazer de ensinar, fui homenageado na formatura.

  • 3ª MUDANÇA - criar a cultura de responsabilidade textual (apelidada de cultura da cobrança). Como professor, há perfis e perfis de alunos, os que se interessam em aprender e estão sempre perto do professor para tirar dúvidas. Meu horário costumava encerrar às 12h50, porém, só conseguia sair da sala depois das 13h30 e olhe lá. Isso porque tinha os alunos que faziam textos por fora e, com todo prazer, corrigia em sala. Faço isso até hoje e, sempre incentivo que o aluno que deseja aprender a escrever, precisa escrever. Como parte da proposta pedagógica do Colégio Maanaim, em todo início de ano letivo, os alunos fazem uma avaliação diagnóstica, a fim de verificar os conhecimentos adquiridos na série anterior, bem como ajustar o planejamento pedagógico, tendo em vista os indicadores de resultado das turmas (foi dessa prática que surgiu o sistema de nivelamento textual), ou mais conhecido como escala de nível (de 1 a 5). Esse instrumento e a avaliação diagnóstica fazem parte do meu hub pedagógico, metodologias e técnicas de acompanhamento da aprendizagem, no sentido de que, após as avaliações e nas atividades, procuro sempre dar o suporte (ao máximo, nem sempre é possível), a cada estudante. Alguns para reforçar melhorias, estabelecer metas de notas e sugerir ajustes, como também procurar aqueles que, repetidamente, apresentam dificuldades. Novamente, tarefa fácil, não. No entanto, isso, associado ao material didático e o suporte, nesses 05 anos de trabalho, foram fundamentais para os atuais resultados.

  • 4ª MUDANÇA - Ensinar é um ato de Amor e, sem isso, não dá para incentivar ninguém. Essa premissa Freiriana, para quem é meu aluno, sabe que é verdade. Como professor, desenvolvi material de repertório (disponibilizei a maioria gratuitamente para os meus alunos), gravei aulas e continuo gravando, ajusto material, gravo podcast de áudio, sou exigente (um pouquinho, mas sempre reitero que o meu desejo é não apenas torná-los eficientes na arte do texto ENEM, uma vez que a cultura de prova no ensino médio costuma direcionar para esse gênero, mas estudantes que são capazes de escrever qualquer texto, independente do gênero, inclusive apresento isso juntamente com a metodologia de trabalho no primeiro dia de aula. Cobro dos meus alunos responsabilidade, sim, e faço, sempre, o possível para prepará-los da melhor forma possível para a prova. Quem é meu aluno sabe como me comporto na semana da prova do ENEM (eu nem durmo... e no dia, ligo para cada um, converso com todos, reforçando detalhes que, como professor, sei que podem atrapalhá-los no dia da prova. Reforço sempre para os meus alunos que estudem, procurem, o lugar de errar é aqui, aqui é o lugar de aprender, e, como professor, farei o possível para tornar essa passagem seja dos do terceiro ano seja dos das séries/etapas anteriores a mais prazerosa possível. Quem é meu aluno sabe que já criei todo tipo de instrumento pedagógico (caneta gigante, espada da tese, luva da intervenção, centro da realidade), a maioria originada das referências da cultura pop contemporânea. E, faço isso com todo o prazer e amor, não só porque é o meu trabalho, mas também entendendo que, como cristão, como afirma 1 Coríntios 10.31, "Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus." Então, o que faço, o que me disponho a desenvolver para os meus alunos é sempre o melhor, pois isso glorifica a Deus.

  • 5ª MUDANÇA - Ser um educador aprendente. Essa é a minha filosofia de práxis pedagógica. Quem é meu aluno conhece os meus materiais e sabe como eu trabalho no sentido de dar todo o suporte metodológico e relacional para alcançar o seu potencial, seja com a orientação de carreira, a feira de profissões, seja com o projeto TCEM (falarei sobre isso em outro texto), atividades pedagógicas que preparam o aluno para além das quatro paredes da sala de aula. E, como pontua Celso Antunes (1996), ser um docente que não acredita na turma, nos alunos, está, lamentavelmente, fadado a ter dificuldades. Vale lembrar que isso não quer dizer que seja fácil o meu trabalho, não é. No entanto, quem é meu aluno sabe que no que eu puder, farei o possível para vê-los no ápice do seu potencial.

Há outros fatores envolvidos, sim. As turmas não são iguais, porém, como educador, tento ser um profissional acessível para todos os meus alunos, em que eles possam contar. Vou exigir repertórios, vou. Vão precisar conhecer alguns autores, vão. E farei isso com o coração feliz de um educador que entende a importância da educação na transformação social. E, claro, a média geral da redação ENEM do Colégio Maanaim, a mais alta da região, os relatos positivos que escuto nos corredores da UFBA quando encontro um ex-aluno ou quando encontro nas andanças da vida, de como a jornada que trilhei na terceira série fez, ou melhor, tem feito diferença na vida universitária, só atesta, novamente, como vale a pena cada esforço/energia investido. E, detalhe, farei isso novamente em 2024, com toda fé e amor que tenho pelo que amo fazer: ser professor.


Obs. Para acessar o desempenho detalhado dos resultados ENEM por escola, basta acessar a página, disponível em https://www.aio.com.br/enemporescola.


REFERÊNCIAS


ANTUNES, Celso. Alfabetização Emocional. São Paulo: Terra, 1996.

BZUNECK, J.A ; BORUCHOVITCH, Evely. A motivação do aluno: contribuições da psicologia contemporânea. 4. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.

KOCH, Ingedore Villaça. O texto e a construção de sentidos. São Paulo: Contexto, 2003.

FERRAREZI JÚNIOR, Celso. Pedagogia do silenciamento: a escola brasileira e o ensino de língua materna. São Paulo: Parábola Editorial, 2014. 118 p.

GUEDES, Paulo Coimbra. A formação do professor de português: que língua vamos ensinar? São Paulo: Parábola Editorial, 2006.

GUEDES, Paulo Coimbra. Da redação à produção textual. O ensino da escrita. São Paulo: Parábola Editorial, 2009.

GERALDI, João Wanderley. Da redação à produção de textos. In: GERALDI, João Wanderley; CITELLI, Beatriz (org.). Aprender e ensinar com textos de alunos. São Paulo: Cortez, 1998.

 
 
 

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