Presença educativa na escola: limites do assistencialismo e crítica à pedagogia da punição
- Prof. Zé Nelson

- 15 de jan.
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Atualizado: 19 de jan.

A pedagogia da presença, tal como pensada por Antônio Carlos Gomes da Costa, parte de uma
constatação que a escola costuma ignorar quando se prende ao conteúdo e à rotina: ninguém aprende bem quando se sente sozinho, invisível ou tratado como problema. Presença, nesse quadro, não é “estar perto” fisicamente, e nem deve ser confundido com simpatia. Na prática, é uma atitude educativa deliberada, capaz de melhorar a qualidade das relações humanas e, por consequência, mudar o ambiente em que o estudante se percebe, se reconhece e se projeta. Ou seja, quando o vínculo é real, o trabalho pedagógico para de ser uma disputa de força e vira uma construção possível.
O primeiro modelo que ele critica, ainda que nem sempre com esse nome, é o enfoque correcional-repressivo, em que se tenta “arrancar” do estudante uma conduta tida como inadequada por meio de punição, humilhação e medo. Esse caminho costuma produzir obediência momentânea e ressentimento duradouro. No cotidiano, aparece quando a escola reduz indisciplina a caso de polícia, quando transforma a sala em tribunal e quando usa a exposição pública como método. Como orientação prática ao docente: se a gestão da turma depende de constrangimento, a aula já perdeu a dimensão formativa, porque o estudante passa a operar por autoproteção, não por aprendizagem.
Além de eticamente problemático, o correcional-repressivo é pedagogicamente ineficiente, porque reforça a heteronomia. O estudante “se comporta” enquanto está sendo observado, mas não internaliza critérios, não aprende a lidar com conflito e não desenvolve autonomia. A pedagogia da presença, aqui, desloca o foco: não é tolerar tudo, é substituir o controle pelo acompanhamento. Isso exige firmeza com regras e, ao mesmo tempo, inteligência relacional para não confundir limite com agressão. A disciplina precisa ter sentido educativo, não caráter de vingança institucional.
O segundo enfoque é o assistencialista, que se limita a suprir carências imediatas. Ele tem uma face humana que não deve ser desprezada: quem está com fome, com frio, sem material e sem suporte emocional não aprende. O problema é quando a escola se acomoda nessa reposição e passa a tratar o estudante apenas como destinatário de ajuda, sem ampliar horizontes. Na prática, isso acontece quando a instituição “resolve o urgente” e abandona o essencial, mantendo o aluno num circuito de dependência, sem construção de projeto, sem ampliação de repertório e sem exigência formativa.
Um exemplo recorrente desse prática, na prática, aparece a escola flexibiliza falta porque “a realidade é difícil”, acolhe o choro no corredor e encerra o caso ali, contudo, o problema é que, sem uma estratégia pedagógica acoplada a esse cuidado, a escola vira apenas um posto de contenção do sofrimento, e o estudante continua sem acesso real ao que o faria avançar: acompanhamento de aprendizagem, retomada de pré-requisitos, rotina de estudo, metas possíveis, devolutiva individualizada e orientação concreta para escolhas. No fim, resolve-se o urgente, mas permanece intocado o núcleo do direito à educação, que é produzir autonomia intelectual e repertório para o aluno não depender sempre de uma próxima ajuda para continuar existindo dentro da escola.
Colegas educadores, como conselho, o assistencialismo precisa ser entendido como ponto de partida, não como finalidade. Acolher, escutar e garantir condições mínimas é parte do trabalho, mas a presença educativa, nessa chave, pede que o professor e a equipe criem oportunidades para o estudante desejar algo maior do que apenas sobreviver ao dia. Isso inclui criar metas, orientar escolhas, ensinar a planejar, abrir acesso à cultura e organizar práticas em que o aluno perceba progresso real. A escola que só “ampara” corre o risco de não educar.
O terceiro enfoque, que sustenta a proposta do autor, é o socioeducativo emancipador. Ele não nega a necessidade de normas nem despreza as carências, mas compreende que educar é criar condições para novas necessidades, mais complexas: necessidade de aprender, de pertencer, de construir autonomia e de se responsabilizar por escolhas. Esse enfoque, na prática, se traduz em uma escola que não trabalha apenas para reduzir danos, mas para ampliar possibilidades. Ou seja, o estudante deixa de ser visto como objeto de intervenção e passa a ser convocado a assumir protagonismo no próprio percurso, com mediação adulta consistente.
Nessa perspectiva, para se pensar uma abordagem pedagógica integrativa, o autor organiza por três exigências que precisam virar rotina de trabalho, não discurso: abertura, reciprocidade e compromisso. Abertura é permitir que o estudante exista de verdade na escola, com nome, história e escuta. Reciprocidade é a soma de pequenas ações que qualificam a relação: perceber a falta, perguntar com interesse, orientar com clareza, tratar com respeito, não reduzir o aluno a rótulo.
Compromisso é não abandonar o estudante quando ele falha, porque a mudança não nasce da ameaça; ela ganha chão quando o sujeito se sente compreendido e aceito, e a partir disso consegue se reorganizar.
Por fim, há um ponto que a pedagogia da presença impõe aos docentes e às equipes: todo adulto na escola educa, independentemente da função. Isso muda o modo de pensar gestão, secretaria, merenda, portaria e coordenação, porque o estudante não separa “setores”; ele vivencia um ambiente. Isso é tão verdade que na escola que atuo, percebo como as profissionais do apoio, portaria, coredor , limpeza e alimentação são queridas pelos estudantes e, mais do que isso, são muitas vezes esses que contribuem com um olhar humanizado e acessam afetivamente o coração dos estudantes. Para o professor, isso exige coerência entre o que se defende e o que se pratica, porque o exemplo educa em silêncio. Quando a escola abandona o modelo repressivo, não se acomoda no assistencialismo e assume o socioeducativo emancipador como eixo, ela deixa de operar por remendo e passa a operar por formação, que é o que justifica a existência da própria instituição escolar, afinal, o papel dela é formar para o futuro, isso envolve as multiplas dimensões do ser humano.
REIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática escolar. Campinas: Papirus, 1995.
COSTA, Antônio Carlos Gomes da. Uma aventura pedagógica. São Paulo: Columbus, 1988.
COSTA, Antônio Carlos Gomes da. Pedagogia da presença: da solidão ao encontro. 2. ed. Belo Horizonte: Modus Faciendi, 2001.




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