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Educação legislativa e servidores: formação continuada como base de um parlamento funcional

A educação legislativa, compreendida como política permanente de formação de servidores, precisa ser tratada como parte da própria arquitetura de funcionamento do parlamento. Não se limita a “capacitar” para rotinas, mas a qualificar o modo como a instituição se organiza, presta contas e se comunica com a sociedade. Nesse sentido, formar equipes do legislativo é investir em capacidade institucional, porque o serviço público entregue ao cidadão depende, em grande medida, da qualidade técnica e comunicacional de quem opera processos, atende demandas, registra informações e assegura a tramitação adequada do trabalho legislativo.

Professsor Zé Nelson no encontro de formação em Inteligência Artificial ofertado na Câmara Municipal de Eunápolis
Professsor Zé Nelson no encontro de formação em Inteligência Artificial ofertado na Câmara Municipal de Eunápolis

Ao longo do processo de redemocratização brasileira, cresceu a percepção de que democracia não se sustenta apenas com eleições e ritos formais, mas com instituições que funcionem com transparência, previsibilidade e padronização mínima de procedimentos. Esse movimento ajuda a explicar por que as Escolas do Legislativo e ações formativas internas se expandiram nas últimas décadas: elas respondem a um problema objetivo, que é reduzir improviso, personalismo e descontinuidade administrativa em estruturas atravessadas por alternância política. Quando a formação vira política institucional, o conhecimento deixa de depender de pessoas específicas e passa a compor um patrimônio técnico da Casa.

Câmara Municipal de Eunápolis - Formação em Inteligência Artificial  em 11 de Novembro de 2025
Câmara Municipal de Eunápolis - Formação em Inteligência Artificial em 11 de Novembro de 2025

Nas câmaras municipais, esse tema ganha ainda mais relevância porque o legislativo local é um espaço de alta fricção com o cotidiano da população. Chega demanda de toda natureza: orientação sobre projetos, reclamações sobre serviços públicos, busca por mediação política, pedidos de informação, participação em audiências, encaminhamentos para órgãos da gestão. Paralelamente, o quadro interno é multifacetado, com profissionais de áreas distintas e níveis diversos de familiaridade com linguagem jurídica e processo legislativo. Sem formação continuada, o risco é criar uma instituição difícil de acessar, onde o cidadão não entende o caminho e o servidor não tem segurança para orientar, o que produz ruído, retrabalho e descrédito.


A importância social da educação legislativa aparece justamente aí: ela melhora o atendimento e reduz barreiras simbólicas. A linguagem pública se torna mais clara, a informação circula com menos distorção, e procedimentos passam a ser executados com mais consistência, o que eleva eficiência e eficácia do serviço prestado. Vale pontuar que esse ganho não é apenas administrativo. Quando a Casa organiza melhor seus fluxos e comunica melhor seus atos, ela amplia a transparência ativa e fortalece o controle social, porque o cidadão passa a conseguir acompanhar, cobrar e participar com mais precisão.


A educação legislativa também atua como uma forma de letramento político institucional. Isso significa ampliar a compreensão coletiva sobre o que o legislativo faz, como fiscaliza, como legisla e como organiza participação social. Na prática, esse letramento diminui a distância entre representação e população, porque a comunidade deixa de enxergar o parlamento como um espaço fechado e passa a reconhecer caminhos concretos de interlocução. O resultado tende a ser uma participação mais qualificada, com demandas melhor formuladas e maior capacidade de incidência sobre pautas públicas, o que fortalece a democracia por dentro, no cotidiano.


Experiências formativas realizadas em câmaras municipais, incluindo ações desenvolvidas pelo IBRADESC, instituição que atuo como coordenador e professor-formador, em municípios como Porto Seguro, Eunápolis, Seabra e outros territórios, evidenciam efeitos recorrentes quando o processo é bem estruturado. Observa-se maior alinhamento de linguagem entre setores, melhoria na compreensão do rito legislativo, organização de rotinas de tramitação e atendimento, além de redução de gargalos comuns relacionados a registros, prazos e encaminhamentos. Em muitos casos, o impacto mais visível não é apenas técnico, mas cultural: a equipe passa a operar com maior segurança institucional e com mais clareza sobre o papel público da Casa, o que tende a repercutir diretamente na experiência do cidadão que busca o legislativo.


Por fim, promover a educação legislativa é defender continuidade, planejamento e investimento, não ações episódicas, entendendo que a caapacitação dos servidores (efetivos ou comissionados) contribuem positivamente para a eficiência das atividades institucionais da casa legislativa. Por isso, as formações precisam dialogar com o perfil da instituição, com seus processos reais e com as necessidades do território, inclusive no que diz respeito à comunicação institucional e ao atendimento ao público. Quando essa política se consolida, o legislativo municipal ganha musculatura administrativa e pedagógica para cumprir melhor suas funções, ampliar confiança social e sustentar práticas democráticas com mais consistência, sobretudo num cenário em que desinformação e descrédito institucional pressionam o espaço público.

 
 
 

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